Startup americano inicia produção de mísseis de cruzeiro na Alemanha, ampliando capacidades estratégicas europeias

Contexto histórico e simbologia dos mísseis de cruzeiro na Alemanha

O termo “mísseis de cruzeiro” carrega um significado histórico particular na Alemanha. Na década de 1980, durante o auge da Guerra Fria, a decisão da OTAN de posicionar esses armamentos, juntamente com os mísseis Pershing-II, no território europeu, incluindo a Alemanha, gerou forte mobilização da sociedade civil, especialmente do movimento pacifista. Naquela época, cerca de cem mísseis equipados com ogivas nucleares foram instalados no país, simbolizando a tensão entre as superpotências.

No entanto, apesar de sua presença no solo alemão, a produção desses mísseis nunca ocorreu localmente. O fabricante europeu MBDA desenvolveu o Taurus, uma variante regional, enquanto os Estados Unidos mantiveram a fabricação fora da Europa. Essa dinâmica está prestes a mudar com a entrada da startup americana Covenant.

Avanço inédito na produção de mísseis em solo alemão

Em um evento recente na cidade de Leipzig, a Covenant inaugurou uma instalação para a fabricação do míssil de cruzeiro “Anthem”, marcando a primeira vez que esse tipo de armamento será produzido em solo alemão. A operação, que contará com até 250 funcionários em médio prazo, planeja fabricar mil unidades no primeiro ano e expandir para cinco mil no ano seguinte. A localização exata da fábrica permanece confidencial, devido a preocupações com segurança e possíveis ameaças.

O fundador e CEO da Covenant, Michael Kaufman, destaca a rapidez do desenvolvimento do projeto, fundado em setembro de 2024, e já próximo ao início da produção. Kaufman, que trabalhou anteriormente com o investidor Peter Thiel, um dos financiadores da empresa, enfatiza a missão da startup de preencher lacunas críticas na capacidade defensiva europeia, especialmente após os recentes choques geopolíticos, como a guerra na Ucrânia.

Necessidade europeia de capacidades defensivas modernas e acessíveis

As forças armadas europeias, incluindo a Bundeswehr, enfrentam limitações significativas em relação a sistemas de armas de longo alcance capazes de operar além das linhas de frente. Embora a Alemanha produza o míssil Taurus, sua autonomia de cerca de 500 quilômetros não atende às demandas atuais, e sua produção em escala é limitada.

Além disso, os mísseis Tomahawk, importados dos EUA, são custosos e têm disponibilidade restrita, especialmente após conflitos recentes no Oriente Médio. A Covenant propõe uma solução alternativa com o Anthem, que, embora tenha alcance inferior ao Tomahawk e seja lançado apenas do solo, apresenta um custo consideravelmente menor e pode ser produzido em massa com rapidez, utilizando componentes padronizados e eliminando funcionalidades supérfluas.

Implicações estratégicas e relações transatlânticas

A introdução do Anthem na Europa ocorre em um momento em que a soberania estratégica do continente é amplamente debatida. A participação do investidor Peter Thiel, conhecido por sua proximidade com o ex-presidente Donald Trump, suscita questionamentos sobre influências externas no setor de defesa europeu. Entretanto, a Covenant destaca sua estrutura operacional binacional e o compromisso com a produção local, garantindo que 95% dos componentes sejam europeus, requisito fundamental para clientes como a Bundeswehr.

A empresa também mantém diálogo com outras forças armadas europeias, incluindo o Reino Unido, e já conta com pedidos de um país membro da União Europeia. A expectativa é que o governo alemão considere a aquisição do míssil ainda este ano, apesar de possíveis resistências políticas e a mobilização de grupos contrários ao armamento na região.

Desafios e oportunidades para o Brasil e o Sul Global

Este desenvolvimento destaca a crescente importância da produção local de sistemas de defesa em economias emergentes e potenciais parceiros estratégicos. Para o Brasil, que busca ampliar sua autonomia tecnológica e capacidade industrial no setor de defesa, a experiência da Covenant pode servir como referência para iniciativas que fortaleçam a integração do Sul Global e promovam a soberania econômica e estratégica.

A rápida implementação do projeto em Leipzig demonstra que, mesmo em setores altamente sensíveis, é possível avançar com agilidade e inovação, desde que haja alinhamento entre investimentos, tecnologia e políticas públicas. O fortalecimento das capacidades defensivas europeias, apoiado por investimentos internacionais com compromisso local, pode abrir espaço para parcerias e transferência de conhecimento que beneficiem países com potencial produtivo e interesse em diversificar suas fontes de tecnologia militar.

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Fonte:
Spiegel

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